18.7.11

José Manuel Garcia Cordeiro

Relembramos entrevista ao Mensageiro de Bragança: P. José Cordeiro é reitor do Pontifício Colégio Português, casa que acolhe os presbíteros diocesanos portugueses que estudam na «cidade eterna»

Há muito que Roma acolhe os padres portugueses para um aprofundamento intelectual, espiritual e humano e para um maior enriquecimento de cada diocese. Em 1900, o Papa Leão XIII fundou o Pontifício Colégio Português para o acolhimento dos presbíteros lusitanos, sublinhando a importância da instituição na Bula de fundação Rei Catholicae apud Lusitanos: “Para maior glória de Deus, aumento da religião (…) fundamos e instituímos em Roma, sob a Nossa autoridade e tutela e dos Nossos sucessores, o Colégio Eclesiástico Português e queremos que ele goze dos mesmos privilégios de que gozam os outros Colégios Pontifícios Eclesiásticos de Roma”. Durante estes cento e nove anos, passaram pelo colégio imensos sacerdotes, muitos deles das dioceses de Bragança-Miranda e Vila Real, que se especializaram em diversas áreas da Teologia. E é, precisamente, um transmontano que preside à direcção do Colégio Pontifício Português. O P. José Manuel Garcia Cordeiro, sacerdote da diocese de Bragança-Miranda, assumiu desde há quatro anos as funções de reitor, apoiado pelo P. José Caldas Esteves, presbítero da diocese de Viana do Castelo.
Em Roma, presbítero de Bragança

O P. José Cordeiro está há dez anos em Roma e foi enviado por D. António José Rafael, bispo de Bragança-Miranda da altura, para estudar Liturgia. O sacerdote refere que já é uma longa história e também uma longa aventura.“D. António Rafael pediu-me para vir por um ano, depois passou para dois. Por fim, dois para três… Na passagem do D. António Rafael para o D. António Montes veio o pedido para ficar de vice-reitor, que assumi durante quatro anos e, depois disso, a função de reitor, que desempenho há quatro anos ”, afirmou. Apesar de já estar em Roma há dez anos, o P. José Cordeiro não se sente romano. “Mesmo assim não me considero romano. Estou sim a prestar um serviço à diocese a que pertenço, a de Bragança-Miranda”. O reitor do Colégio Português considera-se ainda um padre do presbitério de Bragança. “Por isso vou lá no Natal, na Páscoa, no Verão e sempre que posso. Sou de Bragança, não só a nível afectivo mas também efectivo. Sinto-me membro do presbitério com todos os direitos e deveres”, sublinhou. Confessou também que mantém a ligação à sua terra por diversos meios, mas que é muito mais fácil quando estão em Roma outros padres brigantinos, como, por exemplo, “quando esteve o P. Calado e agora o P. José Carlos”. “Quando estive só, sabia a maior parte das notícias através do Mensageiro”, confessou.
A vida em «com-unidade»

Os membros do colégio são presbíteros das várias dioceses, bem como de diversos países. No entanto, os sacerdotes vão para Roma por indicação dos bispos das respectivas dioceses. “Não há nenhum padre que venha para o colégio que não seja apresentado e proposto pelo seu bispo, aliás faz parte dos estatutos. Por vezes são também enviados pelas instituições de investigação teológica, tal como seminários e faculdades. Por norma é o bispo que selecciona, certamente deposita uma enorme esperança naquele padre que vai enriquecer o todo do seu presbitério”, disse o P. José Cordeiro. Apesar da importância na formação especializada dos sacerdotes, não estão todas as dioceses portuguesas representadas no colégio. Dos 37 presbíteros a viverem no colégio, há apenas 14 portugueses, sendo que há vinte de Língua Portuguesa. “Infelizmente não estão todas as dioceses portugueses aqui representadas. Já a Bula da criação deste colégio dizia que pelo menos estivessem dois padres de cada diocese. Hoje podíamos dizer que, se viesse um por diocese, já não era mau. Os que actualmente estão aqui não representam metade das dioceses portuguesas”, afirmou o reitor. Relativamente à presença de padres de outras nacionalidades no Pontifício Colégio Português, o P. José Cordeiro fala em «abertura à universalidade». “É uma vocação dos portugueses de abertura à universalidade. Podemos denominá-lo como um colégio católico no verdadeiro sentido latino, pessoas que vivem em comum ”, frisou.
A proposta de um tipo de vida

O P. José Cordeiro afirma que, quando se fala em colégio, normalmente as pessoas falam num lugar onde se selecciona, o que não acontece no Colégio Português. “É uma residência que é presbiteral e, depois, conforme os cursos para que foram enviados, os padres estudam nas diversas universidades romanas. Esta é também uma casa onde é proposto um tipo de vida comunitário, mas também assente no essencial, para que cada um seja responsável, adulto e livre. Cada um deve organizar a sua vida a partir da sua base, do ser presbítero”, sublinhou. No entanto, a casa que é propriedade da Comissão Episcopal Portuguesa propõe algumas actividades para além daquelas que as universidades oferecem, como a nível da liturgia, cultural, espiritual e da vida em comum.
Orientar numa perspectiva de serviço

O serviço é, para o sacerdote de Bragança, a base onde assenta a sua orientação. O P. José Cordeiro salienta que está em nome da diocese e sob a orientação da Conferência Episcopal Portuguesa e é um trabalho de equipa e com acompanhamento da Congregação para a Educação Católica. “Não é uma tarefa difícil, porque, à partida, há essa base presbiteral que nos une a todos. Da nossa parte é propor um quadro de vida que facilite a presença dos sacerdotes em Roma e que não seja apenas na vertente intelectual, mas que sejam contempladas todas as dimensões da formação permanente: humana, espiritual, pastoral e, sobretudo, uma pastoral da inteligência e de catolicidade, de abertura aos outros”, referiu. O Reitor afirma que tem sido uma experiência feliz, no seu todo. “Talvez a mais feliz nos dois anos que estive como aluno e que procurei aprender o mais que pude, não só no contacto com a faculdade mas com todas as realidades eclesiais presentes em Roma. Estar em Roma já é meio curso. No resto, é um percurso que também aprendi, sobretudo o martírio da paciência, do estar em Igreja e num serviço à medida de Jesus Cristo, que também é servo e esposo da Igreja. Num serviço e amor concreto às pessoas que estão cá no colégio.”, frisou. A direcção do colégio conta ainda com o apoio incondicional das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, que já há 35 anos servem aquela casa com enorme dedicação tal como o administrador, Dr. Manuel Oliveira.
Comunidades presbiterais nas dioceses

O P. José Cordeiro considera que a vida em comunidade do colégio não é nenhum modelo para implementar em qualquer diocese. Isto porque, para o reitor, as comunidades presbiterais terão de nascer no contexto de cada diocese. “Sou entusiasta das comunidades presbiterais, mas depois há que ver o modelo que mais se adapta a cada realidade. Isto não quer dizer que os padres vivam juntos, contudo podem ter algumas actividades em conjunto ”, sublinhou.
Apesar da distância, o reitor do Colégio Pontifício Português em Roma deixa uma mensagem de esperança a todos os leitores. “Estamos a viver uma crise financeira (a pior desde 1929), devida ao elevado débito, e que é também efeito da crise dos valores humanos e cristãos fundamentais. Oxalá não falte aos responsáveis dos governos e a cada um de nós a coragem da esperança para a enfrentar e ultrapassar. No entanto, podemos tomar o sentido original da palavra 'crise' que não indica só a queda ou a catástrofe, mas uma situação de mudança em que é necessário tomar uma decisão. Devemos, por isso, entender a crise como um desafio à coragem e à confiança. A luz da Páscoa renove a esperança do coração de todos os homens de boa vontade”, concluiu.

Fotografia/Texto: Alberto Pais (Mensageiro de Bragança)